SEGUNDA CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA A EL REY D. MANUEL.

Senhor,

Parece que foi ontem! Estava-se em 1500.

Parece que foi ontem quando cá chegamos, nesta terrinha tão encantadora, quanto hospitaleira.

Como já descrevi o que ela possui de beleza, fascinação e magia, não me tenho por obrigado a repetir tudo, pois assim e igual ela continua: bela, fascinante e mágica.

Tanto são verdades tais sentimentos que, hoje, posso redizer o que escrevi em 1º de Maio de 1500, quando estava em Porto Seguro. Se desejardes confirmar, peço ir à 1ª carta, que dorme aí, em Portugal, na Torre do Tombo e lereis:

…nesta terra, Alteza, águas são muitas; infinitas. Em tal maneira ela é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo…

Todavia, não posso deixar-me iludir pela sedutora arte do rejuvenescimento, pois que lá se foram 500 anos e eles me pesam nos ombros e na consciência.

Alteza, tanto Vós como eu sabemos que nunca se deve olhar o passado com os olhos de hoje, isto é, não se deve julgar o que se fez outrora com valores atuais. Seria injustiça e um conflitante modo de encarar a história e seus protagonistas.

Porém, se esta é a lei dos historiadores e psicanalistas, não devemos ficar imunes às críticas e nos eximir de responsabilidades, todas as que sobre nós pesarem. Se com isto não reconstituímos a história, pelo menos nos redimimos, pedimos as desculpas cabíveis ou pagamos a quem devemos. Se nada disso ainda tiver valor, pelo menos aprendemos com a história, para não mais errarmos.

Pois bem, Alteza, se acertamos ao “descobrir”, erramos ao colonizar.

Vá lá, fizemos o que a moral, a religião e a economia mercantilista da época ordenavam, mas ninguém me tira desta teimosa cabeça que vivíamos época em que a cobiça era o vício maior. Ó glória de mandar, ó vã cobiça, já denunciava Camões! Tanto é que nos agarramos com unhas e dentes a esta terra e não a demos a ninguém, mesmo porque era tal qual uma noivinha pura, riquíssima e cobiçada.

Amamos mais o que esta linda terra possuía e o muito que podia nos dar, do que a ela própria. Tal qual um amante desaforado, adoramos mais o ouro do que o Brasil. Amamos mais o Pau Brasil e menos os que aqui habitavam. Eles a tinham descoberto antes e, só por isso, já mereciam respeito; nós é que deveríamos nos considerar hóspedes. E respeito, meu Rei, não é chegado a fazer contas, menos ainda a de subtrair. Porém, os julgamos como que invasores de uma propriedade deles. Incrível!

O nosso primeiro pecado foram os índios.

Sim, Alteza, os índios foram o nosso crasso erro, a  maior maldade e a nossa indefensável perversidade. A violência dos bandeirantes parecia não ter limites: ensandecidos, saíam a caçar índios, tal como quando se estrangula uma pobrezinha gazela.

É notório que tínhamos de colocar este País em ritmo de desenvolvimento a qualquer custo e preço. Mas este foi caro demais e não fomos nós quem o pagou, pois deixamos de herança uma duplicata pesada demais para outros acertarem.

Sem que me veja fugindo da raia, parece-me que o humano adora deixar duplicatas a serem pagas. Assim, não vou recontar os males e mortes provocadas em nome do desenvolvimento, pois que anteciparam, nesta América, o Holocausto da Vossa Europa, ocorrido sob outra inspiração, nos anos 1930 e 1940.

Só que o ‘nosso Holocausto’ foi há séculos e está praticamente apagado da memória, principalmente na de um povo que não a tem em melhor estima e nem a cultiva. No entanto, só foi riscado da lembrança, Majestade, pois que, em cada canto deste País, se não ficaram restos mortais, ficaram os segredos que a matança não mostra, mas também não esconde. São murmúrios longínquos que habitam os ventos, os mares, as florestas e quiçá nossas almas. A isto chamo herança!

Entendei-me como quiserdes, só espero que sem ódio ou outra moléstia, mas tenho para comigo que a verdade é para ser engolida. Um poemeto de Cibae Ewororo, índio Bororó, fala por mim:

O homem branco, aquele que se diz civilizado, pisou duro não só na terra, mas na alma do meu  povo. E os rios cresceram e o mar se tornou mais salgado porque as lágrimas da minha gente foram muitas.

O nosso segundo pecado foram os negros.

Ah, cabeçudos fomos e sem a menor astúcia para perceber o quão tardia chegou a abolição ― fomos dos últimos países do mundo a perpetrá-la. Foram séculos de teimosia e, por fim, pressionada e encurralada, Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, princesa imperial, lavrou a ata da Lei Áurea, a custo de sangue, suor e lágrimas.

Será mesmo que a borracha apaga tempos de crueldade e de truculência? Não, a história não acaba quando um fato se encerra, mas, como uma vespa enfadonha e sedenta, fica rondando o presente e apontando o passado. Como a vespa ela fere, deixa picadas e mordeduras difíceis de sarar. Cicatrizes, às vezes, venenosas. A isto chamo herança ou duplicatas.

Dom Manuel, paremos por um instante: de início, os índios e o seu homeopático ‘desaparecimento’; após, os navios carregados de árvores estraçalhadas e de ouro puro quilate; depois, os negros, ensanguentados e mortos. Tudo me leva a crer não que não houve um descobrimento, mas uma invasão; não se optou pelo desenvolvimento, mas fez-se uma conquista traumática; não se tratou de colonização, mas de um escancarado assalto.

Continuemos: passados 500 anos, hoje, descubro para a Vossa Majestade não um, mas vários brasis.

Há um Brasil de brasileiros-ricos, opulentos e, no dizer do Português casto, dinheirudos e dinheirosos. Todavia, há um Brasil de pobres e miseráveis, que vivem uma vida indigna. Provo com um número capaz de estarrecer os insensíveis: 57 milhões vivem abaixo da linha da pobreza.

Há um Brasil de brasileiros-cultos, que estudam e se enobrecem de cultura e de letras. Entretanto, na outra ponta, estão os que não chegam à 4ª série. Há um Brasil de gente que trabalha e é séria e há outro cheio de vadios de gravatas, que roubam, forjam falências, desviam dinheiro do público ou se beneficiam do poder. Esta foi outra herança: aqui se gosta muito do poder; os que o têm não o largam, os que não o têm o procuram. A Corte ainda parece-me viva neste país…

Há um Brasil de brasileiros-índios que, mesmo com a sua terra demarcada, continuam sofrendo perseguições dos brancos, a torto e a direito. Há um Brasil de brasileiros-negros que se perguntam todo dia 13 de maio: será hoje o dia da comemoração da abolição? E, não tendo o que comemorar, lastimam serem barrados no festim da vida, pois a maioria não estuda e parte está nas penitenciárias, por culpa da sub-vida a que são submetidos desde pequeninos.

Há um Brasil de brasileiros-brancos que, sob a influência impactante, duradoura e nefasta daquela sociedade servil e subjugada, igualmente, ainda não escaparam da extensão escravagista. Tanto é que vivem em regime parecido: uns, na enxada, sem direitos trabalhistas; outras, assim chamadas empregadas domésticas, em nossos lares; outros, milhões analfabetos.

Pergunto-me, igualmente, como é possível tantos e distintos brasis em um único território? Até quando aguentaremos? À vista disso, questiono-me, entre o indignado e o incrédulo: qual força tão grave não permitiu a este meu País seguir em marcha? Afinal, 500 anos não são 500 dias, mas tempo suficiente para angústias do tipo por que este país não deu certo?

Vede, Alteza, ter eu mudado o tom de minha carta e já Vos escrevo como brasileiro. Há tanto vivo aqui, que assim mo considero. Poderia ser diferente? O amor por uma pátria não é genético, mas construído a pouco e pouco!

Há tanto trabalho para pagar as duplicatas e tentar mudar o rumo deste País que, em sendo maravilhoso por fora, há de sê-lo por dentro também. Todavia, é duro ser otimista ao ver um quadro que precisa de outra moldura ou uma casa que carece de outra mobília.

Majestade, salvaremos este País se deixarmos outras heranças aos nossos filhos.

Salvaremos este País se questionarmos o modelo econômico, super centralizador de rendas, de propriedades e gerador da violência urbana e da exclusão social. Entendo eu de mares e bússolas e tenho certeza de não ser este o rumo seguro.

O País estará a salvo se uma nova organização social privilegiar, como ponte excepcional para o desenvolvimento, a Educação.

É-me áspero escrever sobre ela pois, aí, o meu coração navega entre o sonho e a mágoa. Isto porque ignorais, Senhor, como (não) anda a Educação, dado que os governantes a tratam como prostituta e os governados a levam para a cama: todos nós cúmplices da mais absoluta falência ideológica, da falta de projetos e de um estranho caso de decadência sem auge.

De tal maneira, findo esta carta, a segunda, entretanto, não a última. Tenho-me na certeza de que dei conta do visto e vivido, pedindo-Lhe que me perdoe se por ventura tenha me alongado ou me embaralhado em minúcias.

Entendamo-nos, ainda e em tempo. Não penseis Vós, Dom Manuel, que só envio notícias ruins ou apontamentos malvados, pois não quero correr o risco de Vossa Alteza mandar-me pegar as caravelas e zarpar de volta a Portugal, à velas soltas.

Despeço-me, afirmando com franqueza nem tudo estar a se perder, visto que o último censo cá realizado aponta para a diminuição da porcentagem que separa brancos e negros. Já nem me recordo bem, Majestade, se foi o que li nas minhas leituras de cabeceira ou se é o que vejo nas calçadas de minha própria existência, mas há uma verdade concreta, que a muitos e a mim anima e entusiasma, a qual Vos revelo prazenteiro: pelo menos, na mistura de raças, estamos suprimindo as diferenças; findo algum tempo e se as coisas encaminharem-se corretamente, seremos, já-já, um país de mestiços.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Vosso São Paulo de Piratininga, no primeiro dia do quarto mês, do último ano deste milênio de 900.

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