Deslizes do Inconsciente

                                  DESLIZES DO INCONSCIENTE

                                                                              

A senhora trabalha aqui? Em… que casa…?

    O domingo nascido naquela manhã prometia.

   Eu acordei suado, fatigado, porque iniciei a noite com uma insônia das bravas e a terminei com um sonho deveras esquisito. Sonhara que escondia coisas importantes em uma gaveta de cacarecos, certíssimo de que ninguém as veria. Porém, quanto as ocultava com capricho, mais emergiam travestidas sob outros feitios. Esgotado, não encontrava maneira de arrumar aquele interior confuso e conflitante, pois o encoberto lá dentro por mim, mais se parecia com o processo de uma erva daninha: corto aqui… ela cresce ali; aparo lá… brota acolá. E assim por adiante.

Confesso, o sonho de esconde-esconde me atormenta e nunca sai de minha cabeça.  Sobre ele e o que vai abaixo descrito, fico pensando, pensando, pensando. Carl Jung já analisava tal questão quando dizia que dentro de cada um de nós há um outro que não conhecemos. Ele fala conosco por meio dos sonhos.

Confesso, nem minha psicanalista consegue entender que, quando penso que tudo está arrumadinho, de repente, não mais que de repente, vem à tona o desarrumado e me toma de supetão.  Tento mais uma vez… em vão. Afinal, só é lutador quem sabe lutar consigo mesmo, consola-me Drummond…    

O episódio verídico que lhes narro é de importância e faço questão de mostrá-lo ao leitor que pensa {como eu} estar curado de mil insensatezes.  

 Azar por que aconteceu comigo? Ou sorte por que a vida me ensinou outra vez?  Deixo ao leitor a incumbência de responder.   

 Preguiçoso, o Sol estampava ingênuas sensações de serenidade; todavia, como sempre em mim é mínima a paz interna, essas sensações iriam se dissipar logo, logo. Viver é perigoso, pontuava Guimarães Rosa!  

   Amadurecer é mesmo difícil e penoso, porque pensamos ter sangue azul, saber tudo, ser capazes de poucos deslizes, seres sobrenaturais quase completos. Desenhamo-nos como pequenos deuses, vagando entre a perfeição e o encanto. Mera alucinação! Porém, não há como crescer sem erros. Pelo contrário, é admirável colocarmo-nos na situação de humanos desesperadoramente falíveis e esperançosamente mutáveis.

  É, parece que erros são como a ação da erva daninha: corta-se aqui… 

  Verdade. A alma é pau-mandado e nos engana; as vísceras, contaminadas pela sociedade, nos driblam; o coração, deveras corrompido, envia-nos mensagens dúbias; o sangue, fruto da história, nos algema; a mente, esta sim, comprometidíssima pela cultura. Tudo escondidinho nos faz sentir santos; melhor, santinhos do pau oco.

    Porém, detalhes em nossas entranhas nos denunciam: minúcias, umas aqui, outras ali, deixam-nos rendidos perante nós mesmos e, aí, camadas inconscientes vêm à tona.

     Ora veja, tudo um processo antidemocrático, diria o outro, brincando…      

     Continuemos, pois vou lhes provar o que disse acima.

     Tudo aconteceu tão ligeiro, mas tão ligeiro, que só uma consciência humilde e acostumada a detectar com uma lupa os detalhes da existência poderia captar.

      Aconteceu ter sido convidado para almoçar em casa de uma filha, que mora em uma vilinha, bem perto do centro de São Paulo. É um lugarejo incomum, acriançado, aconchegante, antes parecendo um do interior.

     Entra-se nela por uma portada de ferro a qual, elegante, abre-se somente com a anuência de quem mora em uma das sete casas ali existentes. Logo depois de ouvir a campainha, alguém de dentro aperta um botãozinho e… pronto; o resto o leitor já sabe.

     Como de costume, esquecera-me em qual das casas morava a tal filha. Fazer o quê? Apertei um botão, nada; apertei outro, também. Rezei por socorro, para o Além me amparar, enviando-me, quem sabe, alguma pessoa que, servindo de porteiro acidental, permitisse-me adentrar. Estava de tocaia.

     Atendidas as preces, eis vindo uma pessoa a passos de ganso, contudo firmes e fortes.  

     Era uma mulher negra.

     Como em situação incômoda de visitante ignorante para onde ir e duvidoso de qual tecla apertar, e por estar diante de uma senhora, apresentei-me afável, cordial, bem-educado, bem-criado, cortês. Aprumei-me como um pavão certo de que pelas palavras graciosas, pelos gestos gentis iria conseguir meu intento. Apresentei-me, nome, sobrenome, títulos e, se as tivesse e se ela mas pedisse, iriam também de roldão as credenciais civis.

     Já dentro do quintal, todo garboso e orgulhoso por ter sido polido, um verdadeiro palaciano, cheio de respeito, imune de racismos, perguntei-lhe com amabilidade:

  – A senhora trabalha aqui, em… que casa?

     Imperturbável, fitou-me os olhos. Saídas de sua boca as palavras não passaram pelos ouvidos, todavia alfinetaram-me corpo afora. Amargando minha alma, despindo-a, deixaram-na nua.

-Não, não sou quem você pensa. Sou fisioterapeuta e sou moradora aqui, na casa sete. Se possível, tenha o senhor um bom domingo. 

      Naquela noite, dormi rápido.  Contudo, sonhei que era um dos violonistas do Titanic…

Um comentário sobre “Deslizes do Inconsciente

  1. Mônica Aguiar Rocha

    Cá estou again!!!! Muito bom, adorei. Bem escrito, com ritmo (pra mim, depois do conteúdo, ou com o conteúdo, o mais importante). Muito bom…. E parafraseando sua citação de Jung: “O inconsciente é ético”.

    Beijos e, mais uma vez, parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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