Brumadinho. Deixa que os mortos enterrem os seus mortos (Lucas 9, 57-60)

    Acredita-se que na nossa cultura é preciso viver sem nenhuma dor; os antidepressivos que o digam. Freud não pensa assim. No âmago de sua obra, ele investiga as origens da infelicidade e dos conflitos entre o humano e a sociedade. Dá-se por vencido, quando acerta na mosca: ao lado da pulsão de vida, há a de morte; esta, de maneira aguda. O sofrimento é para ele como aquela lama execrável; não dá tempo de se desviar. A besta nos humanos a cria, incita-a e a estimula.           

Alguns pensam que a vida tem um preço. Complicado! Ele é calculado por quem a quer comprar ou por quem a quer vender? Pela lei da oferta e da procura? Uma vida tem um preço; 100 vidas, outro tanto, ou mais. Por exemplo, as de Brumadinho valem 100 mil. O preço de uma vida vítima da crueldade é alto; todavia, se negro, morador na ‘comunidade’ desempregado, desconhecido tem zero valor.   

Quanto mais midiática e pavorosa e intensa e arrepiante e assombrosa for a morte, mais alto o valor. Instituiu-se uma espécie de Bolsa de Valores de Vida, em Brumadinho. Só 100 mil, por quê? Preço de liquidação? Eu pediria mais. Aí, o melado desanda; igual a quando do incêndio na boate Kiss {242 jovenzinhos mortos em questão de minutos}. Qual foi o preço lá?

O pagamento é feito em dinheiro vivo? Em dinheiro por quê? E se fosse oferecido um automóvel Audi. Quiçá valeria 180 mil.

Quem quer vender a própria vida? Ninguém. E quem a quer comprar? Ninguém. Assim, se ninguém a quer comprar, não há de ser colocada à venda. Se ninguém a quer vender, igual, não haverá comprador. Noves fora: não existe o preço de uma vida. É engodo, uma infame tapeação.

─ A minha “vale” um trilhão de Libras Esterlinas.  

─ Um trilhão? Assim você afugenta o comprador.

─ É de caso pensado. Eu não a quero vender.

A mineradora diz que uma vida daquelas que se foram, por inépcia e incompetência da besta funesta, vale 100 mil. Pelos parágrafos sobreditos, pergunta-se: quem estipula o preço de uma vida?

Se ninguém que se foi desta para melhor quereria vendê-la, então, não pode, agora, o comprador, estipular um valor! Assim, alguém está ajustando o valor de uma vida sem que o dono a quisesse vender? O que não é uma venda casada, é roubo, estelionato. Fato.

Quando se tira a vida de alguém, não se pode ‘comprá-la’ de volta, pois o que não existe mais, não tem um preço. Outro assalto, outra enganação: dar um valor ao que não existe. 

Voltemos a Freud. Ele conjectura no humano a “má consciência” ou a “consciência de culpa”, a qual o pagamento em dinheiro atenuaria. Sim, é mais uma tarefa do dinheiro, diminuir a culpa que emergiria da perda do amor social. A mineradora, ao se ver como algoz, carrasco e carnífice, quer de volta o amor perdido. Aí, o dinheiro fala alto e entra no resgate do amor social. É o desprezível dinheiro que aparece comprando tudo, inclusive o que não existe ou o assassino da hora.

A mineradora {leia-se, pessoas que a dirigem} materializa as pulsões que, no humano, destroçam e dilaceram almas e corpos. Pulsões que matam. É o amor e o ódio, o bem e o mal, o sofrimento e o seu paradoxal irmão gêmeo o prazer. Freud explica… ou implica.     

Tragédias impõem o silêncio social. Por três vezes eu não vi o brasileiro fazer piadas, como gosta de fazer sobre tudo: o avião da Chapecoense, Mariana e Brumadinho. Tragédias inspiram sofrimento, piedade e compaixão; ao mesmo tempo terror, pânico e ódio. Contudo, fazem parte do script da existência: não há vida sem prazer, tampouco sem sofrimento. Ora, pois, são as ambiguidades no humano.          

O pai da Psicanálise muito inspirou-se em Édipo, o dos Gregos Antigos. Grosso modo, mata o pai e deita-se com a mãe; ao descobrir a verdade, cega a si mesmo, enquanto a mãe se suicida. É… parece que o sofrimento acompanha o humano como uma sombra. Ou um mar de lama…

 Entendamo-nos, por fim, sofrimento não é para principiantes, tampouco há sirenes que o anteveja; o pior, se houver, não funcionam…   

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