HERANÇAS MALDITAS

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Meu pai era calvo, meu avô idem, meu trisavô… enfim, eu sou calvo. Não é maldita, contudo uma herança, isto é, aquilo que se recebe sem se ter pedido ou o que se ganha sem querer ter ganho. Se na infância, um menino-judeu anda com quipá, gravata, paletó e, quando um pouco mais velho usa chapéu de abas e um cinto de pontas, ele recebe uma herança para a vida.

A herança maior que recebemos dos nossos colonizadores foi a Língua. Chegaram aqui falando uma e hoje somos mais de duzentos milhões falando a mesma; herança para a eternidade.

Outra: com o objetivo de colonizar, traziam negros como escravos, sendo incontáveis os milhões, em quase 4 séculos {1530-1888}. A tal ponto isto foi cravado no útero da história brasileira, que as suas sequelas persistem até hoje, posto que, se não há mais “escravos”, há excluídos. Os negros nunca saíram de piso de baixo e de lá pouquíssimos conseguiram ascender. Confirmo com pergunta: o meu leitor já foi atendido por um médico negro? Tenho a sensata vergonha em constatar que não se pode subestimar a estupidez humana…

Outra: os colonizadores não foram os descobridores; foram os índios que fizeram isto de maneira silenciosa. Mas o silêncio foi eterno, porque foram emudecidos, mortos e sepultados. Aqui, como nas Américas-católicas, calcula-se que o genocídio indígena sacrificou inaceitáveis e incabíveis setenta milhões. Hitler é fichinha.  

Convivemos com a crueldade, habituamo-nos à ferocidade. A Psicanálise ensina que algumas dimensões de transtornos psíquicos são a ausência de remorso ou a possível ‘falha’ na função do superego. Daí, os episódios sobreditos são crimes sem culpados, delinquências sem responsáveis e Justiça nunca feita. Puxa vida!  

Freud, estudioso das ambivalências do humano, distingue o instinto de preservar e unir do de matar e destruir. Noves fora, tudo indica que, aqui, estes dois últimos instintos foram levados às últimas consequências; daí, emergiu uma {oculta} alma bélica na vida social brasileira.

Assim, o menino-Brasil foi se educando e se moldando à força, à brutalidade, ao chicote, às milícias, sempre empreendidos por uma minúscula minoria narcísica. Aqui, é a terra da bofetada, das Marielles, da lama que jorra do vale, do incêndio rubro-negro que aniquila jovenzinhos. A herança maldita vem daí, do descaso para com quem vive no piso de baixo. {Aliás, não só, pois os 240 jovens assassinados na boate Kiss, possivelmente, eram do andar de cima}.    

O descaso é com o Ser!

A história das sociedades não perdoa e faz com que a bola-de-neve role e traga o passado para o presente; este, fruto daquele, faz com que os fatos tenham mais relações entre si do que se possa imaginar.

Do mundo somos, hoje, a terceira massa de presos apodrecendo em fétidas e inúteis prisões; e vêm mais prisões por aí! Os feminicídios e as homofobias são contadas por horas, os assaltos dos políticos ao erário e as benesses dos juízes, dois escárnios. É o Brasil mal-educado que sabe bem o que fazer com bandidos, isto é, mata-os, pois assim é melhor, mortos. Outrossim, o Estado se esquece de onde eles nascem, isto é, de fora da escola.

Não tenho ideia do que acontecerá em 2050. Todavia, recorrentemente, tenho sonhado com as imagens dos violinistas do Titanic. Confesso, acordo apavorado…    

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