DEIXEM-ME IR EM PAZ Baseado em ficções reais…

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         Meu nome me foi dado por meus pais porque, recém-chegados da Itália, fui a primeira filha a nascer no Brasil. Brasilina Admeletto, muito prazer!

         Meu pai era marceneiro dos bons e por isso deu-me condições de estudar. Formei-me médica e trabalhei por mais de 50 anos, sendo minha especialidade atender doentes terminais.

A vida tem seus enigmáticos caminhos, todos desordenados. Tanto é verdade que eis-me aqui, em estado terminal, o mesmo que com tanto carinho tratava meus pacientes.

Com 88 anos estou entrevada, neste hospital, não sei bem há quanto tempo. Aliás, sei. Faz mais de dois anos, pois nos dias de meu aniversário netos e filhos entraram e cantaram baixinho “parabéns a você”.

Fui vítima de um AVC hemorrágico gravíssimo.

         Traqueostomizada, alimento-me por sondas, uso fraldões, não tendo movimentos porque houve falência do sistema nervoso central. Não consigo ver pessoas e, por causa da morfina, não sinto mais dor; minhas pupilas não são mais reativas ao estímulo luminoso. Noves fora: estado de coma irreversível.

         Ninguém imagina o porquê, contudo, ‘ouvir’ e ‘compreender’ foram as únicas funções mentais que me restaram. Seriam sinais dos tempos ou uma nova modalidade das virtudes da mente a serem elucidadas pela neurociência? Sei lá.

         Escuto o monitor programado para alarmar e sei quando há acelerações ou desacelerações da frequência cardíaca, picos hipertensivos ou hipotensão, ou queda da saturação de oxigênio no sangue. Sei de tudo.

 A última notícia que correu por aqui é que estou com insuficiência renal aguda; faço hemodiálise por 24h ininterruptas.  Enfim, estou à espera da falência de todos os órgãos vitais.

Há escaras em diversas regiões de apoio do corpo, especialmente nas costas, nádegas e cotovelos. Tais lesões indicam morte celular e, por conseguinte, houve gangrena gasosa e amputação de dedos de meus pés. Respiro por aparelhos, pois meus pulmões foram tomados por enfisemas, devido a asma e bronquite, companheiras de minha vida, desde pequenina.

Meu corpo parece um barril aberto em várias partes, de onde já exala um cheiro forte pelas necroses. É o cheiro da morte, lenta e prorrogada pelos médicos que ouvem os meus familiares: doutor, enquanto há vida, há esperança.

Todavia, não sinto que dentro de mim haja vida; vegeto.

Somente o meu pobre coração, já combalido, insiste em bombear sangue pelo corpo morto. O coração é um músculo oco que não ‘pensa’ e só está trabalhando por inércia, com medo de parar e confessar a todos a verdade que já é insofismável: estou morta! 

Veja bem: por que foi dado ao coração o privilégio de ser o “dono” da vida ou da morte? Espécie de fiel de balança, ele é que dita o destino de um humano, por um “alvará” bem claro: enquanto está bombeando sangue, há vida, fora disso, a morte! Leitora, responda: se estou “morta” da cabeça aos pés e só meu coração bate, eu estou “viva”? 

Sinto um grave cansaço físico e existencial. Uma fadiga inútil. Para aguentar tudo isso há que se fazer um esforço sobre-humano, talvez igual aos dos 12 Trabalhos de Hércules.  

 A quantidade de remédios, de máquinas ligadas e os procedimentos médicos invasivos, associados ao pouco tempo permitido de visita, deixam meus familiares confusos.

         Não sei o porquê de aguentarem tal situação. Sei, sim. É porque são aficionados a uma tal religião, a qual não permite “matar” uma pessoa (que já está morta). São egoístas e pensam que, em tendo-me assim, ainda me amam e me têm junto a eles. Tão perto e tão longe…

         Meus 5 filhos e meus 7 netos conversam pelos grupos da internet, obsessivamente, para saber: como está a mamãe; como está a vovó, já melhorou?  Venderam um terreno da família para pagar os médicos; cada visita destes custa mil e tantos reais e a hospitalização na UTI ultrapassa outro terreno que terão de vender. Minha vida, ou minha morte, como queiram, vale bens que adquiri, vendidos aos poucos!

         A estas ações estéreis e inumanas dá-se o nome distanásia, a qualdefende a utilização de todas as possibilidades para prolongar a vida de um ser humano. Prolongar a vida ou adiar o sepultamento, isto porque a morte já vive em mim…

         Ontem, meu ex-marido veio me visitar.

         ─ Você foi o grande amor da minha vida, segredou ao meu ouvido.

          ─ Fui nada! Você continua mentiroso? Canalha.

 As pessoas se transformam quando veem a morte chegar. Têm uma piedade desmedida e, por vezes, mentirosa. Esse homem bebeu a vida toda, foi carregado por mim, pois nunca parava em emprego algum e eu tive de sustentá-lo, até que criou vergonha e se separou. Depois, soube que tinha encontrado uma moça 20 anos mais nova, só que cheia da grana.

         A aproximação da morte faz reviver nas pessoas as dimensões boas e esconde o passado, escamoteando os defeitos. Pessoa morta torna-se sempre pessoa boa. Puro fingimento.  

          A minha neta mais velha veio ter comigo.

          ─ Vovó, quando você vai se levantar?! Sare logo, pois a gente não aguenta mais te ver assim!

         ─ São vocês que necessitam me deixar partir sossegada. Acha que tenho vocação para Lázaro?

         Leitora, acho que não posso deixar de dizer o quanto, hoje, eu me sinto arrependida de ter, enquanto médica, prolongado o mais que pude a dor de meus pacientes semimortos, esticando esperanças nas famílias. Não fui justa, certeza. Hoje, vejo que vida assim não é digna. Mas foi o que as circunstâncias me permitiram e o que pude fazer… 

         Aqui, na UTI, há mais uns quatro casos iguais ao meu. Semana passada, ouvi uma conversa muito estranha. Alguém dizia:

         ─ O doutor não vai dar uma sedação mais forte? Nós não aguentamos mais tudo isto!

         ─ Sim, o farei pela madrugada; fique tranquila, seu pai vai parar de sofrer.

         Ah! Subiu-me à alma uma grande indignação. 

Quer dizer que aí está a nossa “ética médica”, tão apregoada e tão cantada a quatro ventos, quanto escondidinha? Esta é a maior arte da onipotência, a saber: fazer às ocultas o que se poderia fazer às claras, ou ser discutido em público. Enfim, deve-se convir que, quando se quer, pode-se compreender o sofrimento dos pacientes e efetivar o seu fim.   

Meu filósofo maior, Heidegger, já conclamava: a morte é bela, a doença é horrível!

         Por que não fazem isto comigo? Por que não me sedam?

         Alguém aí, pode me ouvir ou sentir que eu não suporto mais?

         Pelo amor aos deuses do Olimpo, deixem-me ir em paz…

                                             ****************

JORNAL DA CIDADE”.

Obituário: Faleceu, ontem, devido à falência funcional dos órgãos vitais, a Profª. Dra. Brasilina Admeletto, aos 91 anos. Professora na Faculdade de Medicina, obteve prestígio nacional e mundial pelos seus livros e aulas, devido ao conhecimento e carinho com que tratava doentes terminais, a sua maior especialidade.

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