CARTAS. VOCÊ AS CONHECE?

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Na cidade de São Paulo, 9 de agosto de 2002

         “Estou escrevendo esta carta para você…”

         Eram o que de primeiro aprendi na escola e, por isso, lembro-me com saudades de cartas. Por que saudades? Porque elas não existem mais. Não se escrevem mais cartas. Que lembranças dóceis me vêm, quando me vejo correndo a abrir a portinhola da caixinha de correio; e quanta decepção ao vê-la vazia. Hoje, pelo que ouço e vejo, fico pasmo ao notar que muitas pessoas nunca escreveram, nem receberam uma carta.

        “Pensei muito antes de lhe escrever…”

         A carta era sempre o fim de um processo da mente, ou do coração, havendo uma preparação quase secreta para escrevê-la; a pouco e pouco, os sentimentos cresciam, o pensamento ia se formando e, de repente, arrastavam-se no papel. Este, não era um qualquer, era um “papel de carta”; diferente, distinto, sem par. Por ser infinitamente íntima, não poderia ser escrita a não ser em um papel especial. Isto porque ideias-de-cartas precisavam de um belo recipiente.

         No envelope, percebendo a letra, já sabíamos quem nos escrevia; coisa de mágico! Os dizeres, ali mesmo, já identificavam o seu interior: “ao meu amor”; “ao amigo”; “para a querida”; “Exmo. Sr.”. Aéreo e com cor definida, já demonstrava o país de origem; com lacre colorido, cravava as sílabas iniciais de uma família ou escancarava o seu caráter secreto; com um procurado e valoroso selo, ah, ganhava destaque aquele simples envelope. Digamos, ele era a “porta” da carta.

        “Amor, dentro desta vai, também, o meu coração sofrendo com muita saudade…”

         Ordinariamente, a carta levava muito de nós. Tanto é verdade que, às vezes, a beijávamos antes de colocá-la na caixinha do correio ou a apertávamos no peito, em direção do coração, com a mão espalmada, para que juntos fossem energia ou calores.

        “Envio-lhe junto com esta…”

         A carta era um meio de transporte. Além do discurso em si, carregava algo simbólico: um santinho, um guardanapo do último encontro, uma foto, uma poesia ou, até, certo perfume ali derramado. Rara era a que seguia sozinha.

        “Ainda não recebi a sua resposta e eis-me aqui com esta carta já pronta…”

         Escrevíamos muito, era um ato corriqueiro. Nem bem a resposta havia chegado e lá já estava pronta outra. Dava prazer escrever, pois fabricávamos, na imaginação, o que poderia vir como resposta. A carta era a continuidade de relacionamentos: espichavam-se nela o amor, a vida, os negócios.

        “Espero que esta carta o encontre em perfeita saúde…”

         Uma carta era uma esperança. Confiança de ver o outro recebê-la em bem-estar, expectativa de ser aceita, probabilidade de que, por ela, a realidade pudesse continuar. A carta era o prolongamento da existência. Comunicação rápida, por mais afastados que morássemos; convivência íntima, por mais distantes que estivéssemos; conversação veloz, por mais longa que fosse. Ah, não nos cansávamos de lê-las, repetidamente. Ora, podíamos mostrá-las a outrem; ora, pelo contrário, a guardávamos no criado-mudo, escondida numa caixinha de madeira.

“Não obtive resposta de minha carta e não consigo entender o porquê! ”

         Vira-e-mexe as rasgávamos. Não havia como aguentar as notícias. Eram pesadas, cheias de desprezo ou malquerer, a tal ponto que, ao reconhecer a letra da pessoa que nos enviara, nem a líamos. A carta mudava a nossa face, pois sorríamos logo-logo ao recebê-la, ou chorávamos ao seu final. Pressentimentos à parte, pelo sexto sentido, sabíamos o que vinha dentro: por vezes, alegria; por outras, quanta tristeza. Digamos, elas não tinham meio-termo: eram, oito ou oitenta. Sim, uma simples carta podia mudar o rumo de vidas.

“Termino esta carta e espero que não a mostre a ninguém…”

Não havia necessidade, pois, carta era um objeto sagrado, que guardava em si mesma a dimensão da intimidade, certo silêncio duvidoso ou a doçura de segredos. Inviolável, ninguém a abria e, quando esquecida em cima de uma mesa, intocável, tampouco alguém a lia. Por ela nos ligávamos tanto às pessoas, mas tanto, que os seus dizeres permaneciam em nossa memória por tempo: “… lembro-me perfeitamente do dia em que recebi a sua primeira carta…”

“Escrevo-lhes estas mal traçadas linhas…”

Não importavam a letra, a caligrafia ou erros. Saísse como saísse, a carta era enviada e não haveria críticas que viessem invalidar o ato. Escrever uma carta beirava uma oferenda aos deuses. Inatacável na sua forma, somente criticável no conteúdo, ambos, forma e conteúdo, faziam um todo manifesto; espécie de presente. Vez a vez, contraditória, ela não dizia nada pois, expúnhamos distâncias entre intenção e gesto. Machado de Assis confirmava esse ato inconsciente em um de seus enigmáticos personagens: “… gastou muitos dias, mas veio uma carta longa, e, apesar disso, curta”.

“Eu não menti em minha última carta, você é que a entendeu mal …”

Mentiu, mentiu sim! Enganava-se muito em uma carta. Contava-se lorota, criavam-se situações mirabolantes, justificativas enganosas ou espúrias. Dissimulações especiais ou desculpas esfarrapadas. Com fascínio e sedução, cinismo à parte, por meio de uma carta, mostrávamos quem não éramos. Coisa de bruxaria ou prato cheio para psicanalistas. Os defeitos, os veem só os que desejam; ora, pois, cartas, como os olhos, nos enganam!

Carta de Paulo, apóstolo, aos Filipenses. Carta de Paulo, apóstolo, aos Hebreus, aos Romanos, aos Coríntios e assim por adiante.

Foram quatorze. Eram denominadas Epístolas. Ríspidas e duras, ordenavam caminhos e tentavam converter incrédulos, ditando costumes. Entendamo-nos: já por volta de 30 d.C., cartas ganharam importância inacreditável, posto que, ao vingarem séculos, ainda são lidas por milhões.

Afora isso, outras tantas nutrem diversas e importantes dimensões sociais e políticas que nos fazem arrepiar os cabelos e os braços. Nem mencionemos os inocentes civis executados, quando atingidos por uma carta-bomba, ou o perigo das que conduzem Antraz ou outra espécie de ingrediente mortífero. Ai de nós! 

Continuando, cartas faziam parte da História, tornando-se testemunhas ocultas. Veja: “…escolho este meio para estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater a vossa porta, sentireis a energia para a luta por vós e por vossos filhos. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”. Isto e muito mais, escreveu angustiado, antes de um tiro no coração, Getúlio Vargas, em sua carta-testamento, pretensiosa e dramática, em agosto de 1954.

Cartas contavam a História. Repare: “… creio, mesmo, que não manteria a paz pública. Encerro, assim, com o pensamento voltado para a nossa gente, para os estudantes, para os operários, para a grande família do País esta página de minha vida e da vida nacional. A mim, não falta a coragem da renúncia. Retorno, agora, ao meu trabalho de advogado e professor. Há muitas formas de servir à nossa pátria”.  São pensamentos  expostos  por  Jânio Quadros, em sua carta-renúncia, senão duvidosa, pelo menos astuta ou finória, em agosto de 1961.

“Meu caro amigo me perdoe, por favor, / Se eu não lhe faço uma visita / Mas como agora apareceu um portador/ Mando notícias…”

Intimistas, podiam revelar verdades duras, cruas e ríspidas, aquelas que os déspotas nunca quereriam que outros soubessem. Por estes motivos os poderosos as censuravam. Exatamente, a repressão militar atingia até nossas cartas. Em 1976, Chico Buarque, que iniciou este parágrafo, em meio à grosseria da ditadura, não se furtou em denunciar por música, e o fez como se estivesse enviando uma carta: “Meu caro amigo eu quis até telefonar/ Mas a tarifa não tem graça/ Eu ando aflito para você ficar a par de tudo que se passa…/ Meu caro amigo eu bem que queria lhe escrever/ Mas o correio ficou arisco/ Se permitem, vou tentar lhe remeter…

“Até a próxima. Que tudo corra bem. Responda-me o mais depressa possível…”

Assim, esperando encontrar você tão bem quanto a deixei na última vez, despeço-me saudoso. Todos mandam lembranças e saúde. Recuso-me a enviar esta carta por qualquer mecanismo eletrônico. Vou pessoalmente ao correio, selá-la-ei com minha saliva e a enviarei esperançoso. Você deverá recebê-la, ao faltarem poucos dias para o seu aniversário e já me apresso em cumprimentos. Ficarei aguardando ansioso a resposta, embora saiba que demorará o tanto quanto não possuo de calma. O tempo é o dono de nossa vida e não há como instigá-lo. Sei que esperar resposta de uma carta é um exercício da paciência.

A tempo e a hora, quem a portará é um senhor que outrora vestia um uniforme cinza-chumbo; hoje, porém, traja um alegre azul-amarelo. Sim, senhora, é ele mesmo, o tão esperado carteiro, que, fiel, chega todos os dias e, pessoalmente, entrega algo que guarda segredos e mistérios e o quanto há de encantador e apaixonante no mundo: uma carta.

Sê feliz.

Adeus.

                                                                Paulo Afonso

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