CRACOLÂNDIA

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O que o cidadão busca aqui? Perguntou-me um PM. / Estou vendo, respondi-lhe. / Vendo o quê? Questionou-me ríspido e pontificou: isto não são pessoas, são depravados, loucos mentais. Só curarão se for na compulsória. Sabe o que é compulsória? É para internar à força. O governo vai conseguir isso.          

        Domingo, fui à Cracolândia, no centro de São Paulo.

        O Sol espetava o meu corpo; a alma, com certeza, ficaria para depois. Pelo caminho, via cadáveres vivos que dormiam pelas calçadas. Eram o prenúncio do que iria encontrar; tragédias são sempre anunciadas! Ao chegar, vi um campo de guerra: ambulâncias, viaturas de polícia, camburões e militares armados até os dentes. Tudo se assemelhava a um filme de terror de um diretor genial, mas enfermo.

        Um Estado, pobre e frágil, com parcas políticas de organização social, escolhe o uso da força, especialmente em situações de calamidade como esta.

        O que vi foi assustador, para dizer pouco. Homens, na maioria. Gente moça, variando aos 30. Roupas, poucas e sovadas. São cidadãos, atores sociais, com um discurso silencioso, mas ouvido por poucos. Dão-nos lições nunca aprendidas. Sem ter o que fazer, todos conversam eufóricos; uma euforia à beira do irracional, quase destituída de alteridade. Mesmo assim, confesso, senti mais medo dos PMs do que daquelas paupérrimas pessoas.

        Zonzo, perguntei a mim próprio: como chegaram aqui e a esta condição? Qual história desgraçada de vida ou trajetória malsucedida? Por que eles e não eu? Onde, como e com quem se “perderam”? Por que são homens na esmagadora maioria? Perderam seus empregos? Qual seria, então, a relação entre desemprego e Crack? Foram escolarizados? Suas famílias onde estão? Quando escondemos as respostas à tais penosas perguntas, quem as dará é a polícia…       

        O Crack, como todas as outras drogas (menos o álcool, diga-se), é tratado como evento policialesco. Pelo contrário, o consumo de álcool, terrível droga, gera dinheiro e faz rodar a economia; daí, não ser condenado. Business, compreende?      

        Girei minha vista para o entorno da cidade e pensei: se existir a loucura aqui, ela se confunde com outras insanidades encontradas em São Paulo. O espaço social se dilacerou e o tecido urbano esgarçou. O Estado largou mão destes infelicitados e quem os acolheu, de forma secreta, foi o PCC; este tem mais “competência” do que aquele; provado está. A loucura não se encontra nas pessoas, todavia reside na história delas que se confunde com a história da cidade. Cidade absurdamente desgovernada.

        É necessário a humildade, porque ninguém tem ideia de como encaminhar este problema. Ninguém. Nem o prefeito Dória, hábil em intrigas e acanhado gestor; tampouco médicos, os quais não estão habituados a flertar com a impotência. Pelo contrário, sabemos de sobejo que esta silenciosa guerra está perdida. É imperativo uma nova sensibilidade social para desacreditarmos em internações compulsórias. Seria um retrocesso e o enterro de Foucault. Ele dizia: a psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia.

        Na conversa com alguns que ali habitam, ouço um discurso obsessivo-compulsivo. Só vivem em função do Crack, nada mais tendo em vista ou por fazer durante o dia. Em uma apreciação psicanalítica do que manifestaram, compreendi que eles, ao se afastarem da vida sexual e, reprimindo-a, buscaram, no Crack, uma vivência do prazer, do gozo ou do encanto por viver. Um enigma conflituoso e paradoxal…

Como ali, poucas vezes vi a teoria do Dr. Freud, acerca da pulsão de vida, Eros, e a de morte, Tânatos, tão explícita e candente. Embaralhavam-se as duas pulsões de maneira tão intensa que, digamos em uma metáfora, o resultado era zero a zero! Por conseguinte, emergiam um marasmo mental, uma sonolência física e uma apatia psíquica impressionantes.   

      No que tange ao tratamento que o Estado dá para triste fenômeno contemporâneo, Cracolândia, só há “experiências” malfeitas: um dia, jatos d´água para dissipar usuários; outro dia, os endereçam para um lugar diferente; ora, derrubam-se as barracas, ora, armam-se tendas para que possam dormir em paz. Lembro: não se faz alquimia com humanos; Hitler a fez em escala maldita.

     O Estado brasileiro não tem sensibilidade e nenhum projeto, realista, para lidar com a questão das drogas em geral, a não ser a “guerra”, o autoritarismo e as prisões repletas. Assim sendo, a este mesmo Estado cabe o aforismo: para quem não sabe onde quer ir, qualquer caminho serve!       

     Só vejo “autoridades” buscando alimentar fogueiras de vaidades e tentando ser arautos de soluções mágicas para um problema universal. À força, de preferência.

     Poucos são os empenhados na busca de sensibilidade para lidar com infelicitados. Não há projetos, isto sim, para evitar que novas pessoas entrem no vício. 

Eu dizia, esta é uma guerra perdida. Por que “esta”? Pelo simples fato de ter se tornado uma “guerra”. Nesta, soçobram mortos; no acolhimento, podem aflorar soluções para as pessoas! Urge ouvir o que elas tentam nos dizer. Caso contrário, o amanhã ficará mais desesperador do que o presente.

      A atenuada esperança em encaminhar soluções não significa fugir do problema. Este não pode esperar por soluções mágicas, não só porque envolve vidas, mas porquanto apontem para saídas autoritárias e, a fortiori, estéreis.

      Através do empenho da sociedade e de todos os militantes das Ciências, longe do rigor único do pensamento médico e de gestores acanhados, poderemos enfrentar o futuro.

Um comentário sobre “CRACOLÂNDIA

  1. Mônica Aguiar Rocha

    Parabéns, primo.
    Assunto espinhoso, que, a meu ver, esbarra na falta urgente da educação para essas pobres almas, que esbarra ainda na ausência de pais atentos, estrutura familiar, estrutura que os sustentem de pé…. e como você muito bem encerrou:

    “Através do empenho da sociedade e de todos os militantes das Ciências, longe do rigor único do pensamento médico e de gestores acanhados, poderemos enfrentar o futuro”.

    bjs e parabéns

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