UM ABORTO BEM-VINDO Conto baseado em fatos verídicos

Chamo-me Brasilina Admeletto, muito prazer. Este nome me foi dado por meus pais, pois fui a primeira filha a nascer no Brasil. Narro, agora, à minha rica leitora os acontecimentos mais dolorosos de minha vida; são mais fáceis de serem lidos em páginas, que os sentir na realidade. Tenho 42 anos, 4 filhas e estou grávida de novo. Foi sem querer. Juro. Acabei de sair do consultório e o médico disse: “trigêmeos”. Não, não é possível! “A questão é séria, porque a sua nova gravidez é de alto risco. Você tem muita idade e com 1 m e 58 de altura ficará impossível”. Explico: tive um tumor na hipófise aos 6 anos o que afetou o meu crescimento. Como vou fazer? “Você não tem estatura para acolher trigêmeos. Ou eles morrerão, ou você. Escolha”. “Temos de tirar um dos embriões. Escolha, e rápido. Não haverá espaço. Escolha”. Saí do consultório com a cabeça oca, o coração despedaçado e o peito em uma amazônica angústia; esta, sim, minha hóspede eterna. Fui à minha psicanalista, “você está obcecada”. Falei com meu marido, “faça o que quiser”. Fui à igreja, “é pecado”. Estranha sensação de morte. Não poderia escolher um embrião para ser tirado. Resolvi abortar todos os 3. Fui a um médico, “por favor sente-se na cadeira em posição ginecológica, vou anestesiá-la”. Havia já hora e meia e o doutor disse “a anestesia não está pegando… colabore”. Fechei as pernas, levantei-me, vesti-me e fui embora. “A anestesia não pegou, sei”… Todavia, chegando em casa dormi o dia inteiro. Sei, “a anestesia não pegou”… Resolvi, então, tirar um só embrião. Será amanhã. Atarantada, comecei a pensar qual deles seria sorteado. Uma vida em um sorteio? Senti-me um nada. A angústia ardia, ao passo que eu viajava nas trevas. Como escolher qual deles tirar? Todos são meus filhos. Deitei-me, conquanto meu coração vivesse um colapso. O pensamento doía. Ai, meu Deus, a culpa católica. Vivia em plena contradição mental; lembrei-me de Freud: o homem não é senhor em sua própria casa…! Na minha cabeça de mulher não cabia a ideia de perder um filho e eu submergia em sensações de exaustão. Manso, manso, veio o sono profundo… Acordei, sentindo escorrer um líquido por entre minhas pernas. Mais líquido. Era sangue aos borbotões. Ensopada em sangue, desmaiei.  “Bom dia, Brasilina, você está no hospital. Houve um aborto espontâneo! Só perdeu um dos embriões, mas os outros sobreviveram. Não entristeça, essas duas crianças lhe trarão muita felicidade”.

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