Crianças mordem outras crianças. Por quê?

Atenta e prestativa, a professora assistia às crianças, em sala de aula de uma escola de Educação Infantil. Tudo estava tranquilo e os pequenos brincavam com joguinhos de montar. Em um instante, ela percebeu que Marianinha e Pedrinho disputavam uma peça do jogo. De imediato, correu para lá. Não deu tempo, pois, em menos de 5 segundos, a menina deu uma mordida no braço dele, a tal ponto de fazer surgir ali um vermelhão, no qual aparecia o círculo de seus dentinhos…. Feita a confusão!

            Para a pergunta-título deste pequeno artigo não há, nem respostas científicas, quanto menos convincentes, especialmente para os pais de Pedrinho, a vítima…

Nesta fase da vida, fique claro, temos pouquíssimo acesso para desvendar os reais motivos que levam algumas crianças a esse comportamento. O próprio Prof. Piaget já ensinava que, sobre crianças na 1ª Infância, temos muito mais dúvidas do que certezas, mais hipóteses do que verdades. 

            Como em tantos outros, estamos diante de um fenômeno que foge à lógica de presumíveis interpretações, beirando ser inexplicável. Tanto é verdade que, se se torna comum, não é regra geral, dado que muitas delas passam por essa idade sem morder outras crianças.

            Então, por que há crianças que mordem as outras?

Com toda a franqueza, a minha primeira resposta seria um tímido não sei! Todavia, não me eximo, aqui, de tentar levantar hipóteses que, se não vierem solucionar o problema, poderão dar, a pais e educadores, algumas pistas para poderem compreendê-las e ajudá-las a não mais tirar alguns gorduchos bifinhos do indefeso corpo de outrem…

O primeiro aspecto que devemos salientar quanto à questão deste tipo de mordidas, é que fazem parte do “universo animal” no qual, humanos em geral e crianças em particular, estamos todos inseridos e envolvidos.

            Partimos, portanto, do princípio básico de que todos somos animais.

Os humanos constituem uma espécie animal semelhante a muitas outras existentes na natureza: somos vertebrados, mamíferos, carnívoros, homeotermos e bípedes. Entretanto, o que distingue e distancia os “humanos-animais” dos “animais” é, justamente, uma dimensão extraordinária que levou séculos para ser desenvolvida: a razão.

Lembremo-nos de que, na evolução sócio-histórica, alguns animais demoraram para conseguir se equilibrar e andar sobre as suas duas pernas; igualmente, esperaram milênios para se apropriar da linguagem e articular palavras com significados; concomitante a essas evoluções, lá se foram outros centenários para o surgimento da razão. Resultado dessa equação de desenvolvimento: o surgimento da espécie humana.

Cada criança pequenina, hoje e sempre, é espelho do que foi essa evolução.

Cada criança pequenina, em suas ações e em seu desenvolvimento particular, mostra, explica e comprova o desenvolvimento da mesma espécie, no geral. Eis, pois, que, passo-a-passo, ela segue o mesmo caminho percorrido por todos os seus ancestrais: repete-o, portanto, na lentidão para fixar o andar, na vagareza para a aquisição da linguagem e na espera de um longo tempo para o surgimento da razão. A diferença é que, no ser pequeno, nada custa séculos, mas “só” alguns anos. 

Igualzinho ao útero que todos os meses ‘espera’ pelo óvulo fecundado, o desenvolvimento da criança ‘aguarda’ pelo surgimento da razão. Digamos, ansiosamente, a mente vai se ornamentando, moldando-se e criando espaço e funções para que a razão e os seus principais atributos, o pensamento e a linguagem, possam emergir.  

Por outro lado, enquanto não surge a razão, podemos considerar a criança um “animal”. Para ser cortês, um animalzinho! Bonitinho, engraçadinho, mimoso, delicado, formoso, alegrinho… mas, um animalzinho.

Concomitantemente, a empreitada máxima que a natureza nos joga nos ombros, a tarefa mais espetacular a que fomos chamados, a esperança quotidiana e social concretizam-se, justamente, em um processo duradouro e demorado: a transformação, a transmutação de “animais”, em “humanos-animais”.

Enfim, alguém já disse e eu repito: o humano nasce animal… para se tornar pessoa! E tal arte incrível, tal caminho maravilhoso se concretizam só por um importante meio, por um audacioso e necessário processo: o da educação.

Continuemos. Sem a razão, o animal morde em diversas ocasiões: para comer, para se defender ou para ajudar. A sua vida está diretamente ligada a esse ato, constituindo-se em uma função essencial e no dinâmico artifício da sobrevivência. No morder animal, podem se misturar sentimentos de ódio ou de amor: morde com rancor para abocanhar, destroçar, dilacerar ou matar. Por outro lado, segura o filhote com ternura, levando-o de um lugar para o outro, através de uma mordidinha em sua pele do pescoço; o canguru aloja o filho em sua bolsa, segurando-o pelos dentes, em uma mordedura amorosa; igualmente, ao observarmos dois cães em um jardim, podemos ver mordidas fazendo parte integrante de suas alegres e saudáveis brincadeiras.   

Os animais sentem prazer em morder, sendo tal ato uma necessidade vital e fisiológica. Alguns deles estendem esse prazer ao máximo, transformando-se, principalmente enquanto pequeninos, em magníficos roedores: em nossa casa acabam com rodos, vassouras, plantas ou, até, com a parte inferior de um sofá, na sala de visitas…

Na sequência desse raciocínio, a criança (ou o “animal-criança”, como a chamaremos adiante) vive em função da boca, parte do corpo que, em primeira instância, assume a função de lhe proporcionar encanto e  prazer.

Com alguma certeza podemos afirmar que, pela boca, ela vive marcantes sensações de prazer físico, psíquico e social. A boca é a responsável pela primeira interação da criança com o universo externo, tipo de ponte entre ela e o mundo. Não sabe falar ou pensar; não sabe bem o que fazer com as mãos e, tampouco, para que servem; tem pouquíssima percepção do lugar que o seu corpo ocupa no Universo, contudo sente na boca a sua única e primária maneira de se comunicar, de sentir o outro ser e dele receber alimento e afeto.

Sim, como uma espécie de profecia a ser experienciada pela vida afora, é pela boca que ela percebe e recebe as primeiras noções de afeto. O sorriso frequente instalado em seus lábios é a prova mais cabal do que lhe explico e a forma mais simples de retribuir o amor recebido. 

A boca está para a criança, assim como as mãos estão para um deficiente visual: é um referencial para ela chegar ao conhecimento. Saboreia desde areia, pedrinhas, papéis, até um doce, sem fazer distinção anterior. Leva, então, tudo à boca, por uma necessidade físico-mental de conhecer, podendo este ato se tornar uma passageira obsessão.

Quando surgem os dentes, a dinâmica muda um pouco de figura, pois eles ardem na boca, causando dores, febres, quiçá sofrimentos. Com eles a criança pode se sentir mais poderosa, capaz de ações mais intensas ou enérgicas. Come alguns poucos alimentos sólidos e experimenta sensações de rasgar, cortar e… morder.

Morder passa a ser um imperativo fisiológico, uma necessidade orgânica, um desejo existencial e psicológico. Aí, um objeto de borracha chamado “mordedor” serve, em parte, para satisfazê-la. Não contente com isso, ela costuma morder os dedos, a bochecha ou, o que é mais comum, o queixo do pai ou da mãe. Só que os pais sabem se defender e evitam que a criança lhe crave os dentinhos. Ressalte-se, outrossim, que os adultos sentem uma real alegria nesta dinâmica afetiva e neste tipo de ligação física, estimulando tal contato amoroso. Note-se por fim: de princípio, a criança morde como expressão de carinho.  

Todavia, ainda com a ausência da razão, o “animal-criança” morde outras crianças que ainda não sabem se proteger. Por incrível que possa parecer e, seguindo a lógica até agora estudada, neste ato está contido um movimento interno da busca de prazer. Um doloroso prazer, importante para algumas crianças, difícil de os adultos impedir e o desgosto dos pais de Pedrinho…

Além disso, este lindo ‘animalzinho’ morde para se defender, para atacar ou para pegar um brinquedo das mãos do colega. Quanto não fosse uma simples imitação do que vê outras crianças fazer, essa ação pode ser compreendida como um ato automático, quase mecânico, envolto em um momento existencial de puro egocentrismo. Melhor dizendo, de egocentrismo puro.    

Os adultos precisam entender que crianças que mordem crianças não são, necessariamente, portadoras de alguma patologia. Pais e educadores podem ficar tranquilos e não se assustar pois, na literatura da Psicologia, tal fenômeno é, ordinariamente, entendido como uma fase. Difícil, mas uma fase que, com o surgimento da razão, do pensamento e da linguagem, tende a se dissipar. Espera-se…

Do mesmo modo, os pais de crianças que foram mordidas não precisam ficar preocupados com algum trauma que tal ato possa causar. Dói na hora, e, certamente, será esquecido com facilidade.   

No entanto, devemos evitar ao máximo que tais ocorrências se tornem corriqueiras em sala de aula, em festinhas ou em casa, pois, não bastassem ser dolorosas para quem as sofre, causam extremo constrangimento social.

O adulto presente deve acudir em primeiro lugar a criança que sofreu a mordida sem, no entanto, sufocar o possível choro decorrente. Segurando-a no colo, acariciando-a, deixe-a chorar à vontade, compreendendo que é a maneira dela reclamar ou de manifestar a sua dor. Tenho para comigo que, não se tornando uma obsessão, chorar é sempre bom…(estivesse eu no local do acontecido, diria: Pedrinho, chore bastante, chore querido, isso vai passar. O tio[1] Paulo também está triste).     

Se necessário, a enfermeira poderá continuar a dar-lhe atenção aos aspectos físicos dilacerados…   

 Contudo, o que fazer com Marianinha, a mordedora?

 De princípio, é necessário saber que ela tem pouquíssima noção do ocorrido e, menos ainda, de suas consequências. Prova disso é que é comum ela se assustar e começar a chorar também. Tirá-la do ambiente já conturbado, ficando a sós, ajuda uma maior e necessária interação entre o adulto e a criança. (estivesse eu no local do acontecido, diria sério e em tom duro e intenso: Marianinha, isso que você fez não é possível. Você causou um sofrimento, uma dor em Pedrinho. Não faça mais isso! Vamos lhe fazer um carinho e pedir desculpas).

Perguntar-me-ia a leitora desacreditada: de que adianta falar, se ambas nada entendem? A resposta é simples: se crianças aprendem a falar… falando, aprenderão a ouvir… ouvindo. Por isso mesmo, não tenho receio algum em me comunicar com elas como posso, como sei e da maneira na qual acredito. Tenho fé no que lhe esclareço, pois vejo em inúmeras oportunidades que, ao se aproximar do colega agredido, é comum aquela criança dizer de seu jeito e modo: dicupa Pedinho…

Adiante: elas não entendem, mas percebem a voz. Pouco compreendem, mas sentem o adulto perto, comunicando-se com ela através da mais importante e ingênua maneira, a fala. Aqui, escutar é mais importante do que compreender; a lógica vai se estabelecendo no simples ouvir.

Todavia, de nada adiantam só palavras. Se estas são importantes, mais ainda o são os sentimentos que as acompanham; as sensações que o adulto passa ao se expressar e a percepção que tem do acontecido. Tudo exala pelos ares respirados pela criança e pelo adulto, unindo-os, conectando-os em uma relação afetuosa; a lógica vai se estabelecendo pelos sentimentos.

Como tudo em Educação, a forma e a maneira superam o conteúdo, consequentemente, crianças pequeninas se desenvolvem mais pelo que sentem, do que pelo que ouvem. Palavras ajudam, mas o vento as leva. Nós as educamos pelo que sentimos por elas, pelo que sentimos por suas ações e, mais tarde, por suas opiniões. Então, Marianinha necessita sentir que o adulto está bravo, atrevido e, até raivoso.

 Se uma moldura dá vida ao quadro, os sentimentos dão feições às palavras. Pelo caminho da fala, Pedrinho mereceria sentir do adulto afeição, carinho, acolhimento e amparo. Em contrapartida, Marianinha deveria sentir a força, o aborrecimento, o desagrado e a insatisfação do educador.

Deveras, adulto nenhum pode se omitir perante o dever de educá-los desde pequeninos. Tal obrigação necessita estar embasada no bom senso e pelo…coração! Se isto assim é, repito, o bom senso e o coração, advertem-nos que crianças que mordem, beliscam, chutam, cospem ou agem de iguais maneiras não podem ser excluídas dos ambientes sociais, tanto os familiares, quanto os escolares. É fato!   

Especialmente no mundo de hoje, talvez até mais do que a família, é a escola de Educação Infantil, ou a creche, como queiram, a mais esplêndida e admirável referência para a criança na 1ª Infância. São indescritíveis os benefícios de socialização, de experiência afetiva, de contato amoroso e de crescimento mental e cognitivo que ela pode e deve desfrutar e sentir nesse ambiente. A prova mais cabal do que lhes escrevo é que a esmagadora maioria delas adora ir para lá. Sabe-se que continuarão assim, pelo menos até a 6a série…

Em casa, os pais que desejarem educar as pequeninas crianças mordedoras, ou com outras características semelhantes e passageiras, se não puderem ter um contato contínuo, ao menos precisam privilegiar a presença qualitativa. Além disso, devem lhes propor limites claros, adequados e justos, acostumando-as à rotina, aos horários, aos hábitos, a ouvir com atenção, a falar com carinho e respeito, a impedir que lhes levantem a voz ou as mãos e, já mesmo nessa tenra idade, a consumir pouco e ter menos ainda.

Na escola, o tempo sabiamente preenchido, as atividades rotineiras, o brincar estimulante, o lúdico diferente, o planejamento de ações cooperativas e ordenadas, o contato com artes, cânticos e movimentos, a permanência ao ar livre, a relação preciosa com a natureza, o espaço físico adequado e amplo, a ordem do material, a limpeza do ambiente e um número reduzido de crianças por turma, tudo pode contribuir para a diminuição de ataques físicos ou morais de qualquer ordem.

 São essas, entre outras, as estruturas e dimensões psicossociais em que a criança vai vivendo e introjetando, as quais lhe serão úteis para a formação de limites. Estes, enfim, fazem parte de uma dimensão maior no humano, a qual somos obrigados a educar, intitulada personalidade.

A personalidade, leitora, a personalidade!

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* O autor é Professor Doutor em Psicologia Educacional pela UNICAMP, psicanalista, escritor e diretor clínico do Instituto Esplan.    pronca@esplan.com.br


 

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