HERANÇAS MALDITAS

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Meu pai era calvo, meu avô idem, meu trisavô… enfim, eu sou calvo. Não é maldita, contudo uma herança, isto é, aquilo que se recebe sem se ter pedido ou o que se ganha sem querer ter ganho. Se na infância, um menino-judeu anda com quipá, gravata, paletó e, quando um pouco mais velho usa chapéu de abas e um cinto de pontas, ele recebe uma herança para a vida.

A herança maior que recebemos dos nossos colonizadores foi a Língua. Chegaram aqui falando uma e hoje somos mais de duzentos milhões falando a mesma; herança para a eternidade.

Outra: com o objetivo de colonizar, traziam negros como escravos, sendo incontáveis os milhões, em quase 4 séculos {1530-1888}. A tal ponto isto foi cravado no útero da história brasileira, que as suas sequelas persistem até hoje, posto que, se não há mais “escravos”, há excluídos. Os negros nunca saíram de piso de baixo e de lá pouquíssimos conseguiram ascender. Confirmo com pergunta: o meu leitor já foi atendido por um médico negro? Tenho a sensata vergonha em constatar que não se pode subestimar a estupidez humana…

Outra: os colonizadores não foram os descobridores; foram os índios que fizeram isto de maneira silenciosa. Mas o silêncio foi eterno, porque foram emudecidos, mortos e sepultados. Aqui, como nas Américas-católicas, calcula-se que o genocídio indígena sacrificou inaceitáveis e incabíveis setenta milhões. Hitler é fichinha.  

Convivemos com a crueldade, habituamo-nos à ferocidade. A Psicanálise ensina que algumas dimensões de transtornos psíquicos são a ausência de remorso ou a possível ‘falha’ na função do superego. Daí, os episódios sobreditos são crimes sem culpados, delinquências sem responsáveis e Justiça nunca feita. Puxa vida!  

Freud, estudioso das ambivalências do humano, distingue o instinto de preservar e unir do de matar e destruir. Noves fora, tudo indica que, aqui, estes dois últimos instintos foram levados às últimas consequências; daí, emergiu uma {oculta} alma bélica na vida social brasileira.

Assim, o menino-Brasil foi se educando e se moldando à força, à brutalidade, ao chicote, às milícias, sempre empreendidos por uma minúscula minoria narcísica. Aqui, é a terra da bofetada, das Marielles, da lama que jorra do vale, do incêndio rubro-negro que aniquila jovenzinhos. A herança maldita vem daí, do descaso para com quem vive no piso de baixo. {Aliás, não só, pois os 240 jovens assassinados na boate Kiss, possivelmente, eram do andar de cima}.    

O descaso é com o Ser!

A história das sociedades não perdoa e faz com que a bola-de-neve role e traga o passado para o presente; este, fruto daquele, faz com que os fatos tenham mais relações entre si do que se possa imaginar.

Do mundo somos, hoje, a terceira massa de presos apodrecendo em fétidas e inúteis prisões; e vêm mais prisões por aí! Os feminicídios e as homofobias são contadas por horas, os assaltos dos políticos ao erário e as benesses dos juízes, dois escárnios. É o Brasil mal-educado que sabe bem o que fazer com bandidos, isto é, mata-os, pois assim é melhor, mortos. Outrossim, o Estado se esquece de onde eles nascem, isto é, de fora da escola.

Não tenho ideia do que acontecerá em 2050. Todavia, recorrentemente, tenho sonhado com as imagens dos violinistas do Titanic. Confesso, acordo apavorado…    

Brumadinho. Deixa que os mortos enterrem os seus mortos (Lucas 9, 57-60)

    Acredita-se que na nossa cultura é preciso viver sem nenhuma dor; os antidepressivos que o digam. Freud não pensa assim. No âmago de sua obra, ele investiga as origens da infelicidade e dos conflitos entre o humano e a sociedade. Dá-se por vencido, quando acerta na mosca: ao lado da pulsão de vida, há a de morte; esta, de maneira aguda. O sofrimento é para ele como aquela lama execrável; não dá tempo de se desviar. A besta nos humanos a cria, incita-a e a estimula.           

Alguns pensam que a vida tem um preço. Complicado! Ele é calculado por quem a quer comprar ou por quem a quer vender? Pela lei da oferta e da procura? Uma vida tem um preço; 100 vidas, outro tanto, ou mais. Por exemplo, as de Brumadinho valem 100 mil. O preço de uma vida vítima da crueldade é alto; todavia, se negro, morador na ‘comunidade’ desempregado, desconhecido tem zero valor.   

Quanto mais midiática e pavorosa e intensa e arrepiante e assombrosa for a morte, mais alto o valor. Instituiu-se uma espécie de Bolsa de Valores de Vida, em Brumadinho. Só 100 mil, por quê? Preço de liquidação? Eu pediria mais. Aí, o melado desanda; igual a quando do incêndio na boate Kiss {242 jovenzinhos mortos em questão de minutos}. Qual foi o preço lá?

O pagamento é feito em dinheiro vivo? Em dinheiro por quê? E se fosse oferecido um automóvel Audi. Quiçá valeria 180 mil.

Quem quer vender a própria vida? Ninguém. E quem a quer comprar? Ninguém. Assim, se ninguém a quer comprar, não há de ser colocada à venda. Se ninguém a quer vender, igual, não haverá comprador. Noves fora: não existe o preço de uma vida. É engodo, uma infame tapeação.

─ A minha “vale” um trilhão de Libras Esterlinas.  

─ Um trilhão? Assim você afugenta o comprador.

─ É de caso pensado. Eu não a quero vender.

A mineradora diz que uma vida daquelas que se foram, por inépcia e incompetência da besta funesta, vale 100 mil. Pelos parágrafos sobreditos, pergunta-se: quem estipula o preço de uma vida?

Se ninguém que se foi desta para melhor quereria vendê-la, então, não pode, agora, o comprador, estipular um valor! Assim, alguém está ajustando o valor de uma vida sem que o dono a quisesse vender? O que não é uma venda casada, é roubo, estelionato. Fato.

Quando se tira a vida de alguém, não se pode ‘comprá-la’ de volta, pois o que não existe mais, não tem um preço. Outro assalto, outra enganação: dar um valor ao que não existe. 

Voltemos a Freud. Ele conjectura no humano a “má consciência” ou a “consciência de culpa”, a qual o pagamento em dinheiro atenuaria. Sim, é mais uma tarefa do dinheiro, diminuir a culpa que emergiria da perda do amor social. A mineradora, ao se ver como algoz, carrasco e carnífice, quer de volta o amor perdido. Aí, o dinheiro fala alto e entra no resgate do amor social. É o desprezível dinheiro que aparece comprando tudo, inclusive o que não existe ou o assassino da hora.

A mineradora {leia-se, pessoas que a dirigem} materializa as pulsões que, no humano, destroçam e dilaceram almas e corpos. Pulsões que matam. É o amor e o ódio, o bem e o mal, o sofrimento e o seu paradoxal irmão gêmeo o prazer. Freud explica… ou implica.     

Tragédias impõem o silêncio social. Por três vezes eu não vi o brasileiro fazer piadas, como gosta de fazer sobre tudo: o avião da Chapecoense, Mariana e Brumadinho. Tragédias inspiram sofrimento, piedade e compaixão; ao mesmo tempo terror, pânico e ódio. Contudo, fazem parte do script da existência: não há vida sem prazer, tampouco sem sofrimento. Ora, pois, são as ambiguidades no humano.          

O pai da Psicanálise muito inspirou-se em Édipo, o dos Gregos Antigos. Grosso modo, mata o pai e deita-se com a mãe; ao descobrir a verdade, cega a si mesmo, enquanto a mãe se suicida. É… parece que o sofrimento acompanha o humano como uma sombra. Ou um mar de lama…

 Entendamo-nos, por fim, sofrimento não é para principiantes, tampouco há sirenes que o anteveja; o pior, se houver, não funcionam…   

ABATEDOURO BRASIL

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                              ABATEDOURO BRASIL

  Roma. Próximo de 68 a.C.  Ao adentar a arena para uma luta mortal, os gladiadores saudavam o Imperador: “Ave, Caesar morituri te salutant”.Em tradução livre do Latim: Ó, Cesar, os que vão morrer te saúdam.

  Carandiru. 1992 d.C.  111 mortes, muitos com tiros na nuca. Não sei por quê, mas tenho alguma certeza de que o meu leitor não terminará de ler este artigo. As pessoas não se interessam mais pelo tema, que virou arroz-de-festa. O morticínio nos presídios {metástase de pus jogado na sociedade} inviabiliza a paz. Ninguém sai imune ou impune. Nem eu, nem você. Mais dia, menos dia, de distintos modos, vai sobrar para nós.   

  Maranhão. 2013 d.C.  Carnificina com 60 mortes. Números desastrosos, mostram a crueldade de um sistema prisional arruinado, de uma sociedade doente e da irresponsabilidade coletiva. Há pouco mais de 400 mil vagas para um infame número de quase 800 mil detentos.  Impossível continuarmos assim, mesmo sabendo que o capitão-presidente afirmou com sua grotesca sabedoria: “prisão é como coração de mãe, sempre cabe mais um”. Confunde o local, com abatedouros…

  Manaus. 2017 d.C.  50 mortos em fúnebre motim. Tudo acontece sob um olhar suave das autoridades; não só delas, mas sob o meu olhar, o seu e o dos brasileiros. Não dá mais para fugir à responsabilidade!

  Manaus. 2019 d.C. 55 mortes ordenadas com requintes de fina crueldade. No Estado democrático moderno, as pessoas agem sempre politicamente, pelo menos ao exercerem, ou não, o voto. Portanto, somos politicamente responsáveis por tudo o que sucede. A culpa coletiva {uma culpa moral, tão importante quanto a cível} subsiste como responsabilidade política de cada cidadão. Assumi-la é uma tarefa árdua, pois vemos a desgraça, fomos avisados dela e ninguém mexe uma palha. Ninguém.  As ruas esperam por nós cidadãos, que nos escondemos em casa, à espera de uma pestilenta conta social que pesará nos nossos ombros ou no dos nossos filhos. Ninguém sai imune ou impune. Então?

   Ao invés de culpar só o Estado, hoje, é inegável que cada cidadão se assuma responsável ou corresponsável. Igual ao ocorrido com séculos de escravidão e com milhões de indígenas assassinados, nós, brasileiros, não nos acostumamos à questão da responsabilidade político-moral de cada cidadão. Daí, não surgirem em nós o menor sentimento de culpa e de remorso; na ausência destes sentimentos, a Psicanálise vê, aí, importantes e severos distúrbios psicopatológicos. Fato.

MACONHA

Fui à ‘marcha da maconha’, ocorrida em Sampa. Gente por todos os lados. A moçada fumava diante dos olhos abertos de muitos policiais. A “erva maldita” acompanhava palavras de ordem: ei, polícia, maconha é uma delícia! Pacífica, a caminhada seguiu em marcha, deixando nas ruas a sua história e a sua narrativa; só nos falta lê-las.

        O tema, de alta complexidade, pelo caráter controverso e polêmico, está longe de soluções. De início, de uso individual e ocasional, a maconha entrou na história, transmutando-se em fenômeno de massas e de uso recreativo-habitual. Assim considerada, ela veio para ficar, sendo que, para o bem ou para o mal, nunca mais sairá do cenário brasileiro, fato. Onipotentes que somos, erramos ao declarar “guerra” às drogas e, a fortiori, à maconha. Ainda cremos em guerras; cremos na polícia mais do que em projetos de Saúde Pública ou em Educação.     

       Quando o Estado é incapaz de intervir como organizador de condições do povo, os mais espertos o fazem. Feito serpente surge a figura do traficante, como um ‘Estado paralelo’. Sim, o PCC é mais inteligente do que muita gente letrada. Será impossível acabar com a maconha, mas podemos abolir o traficante, as prisões arbitrárias e a clandestinidade. Veja, hoje, “incentivamos” a clandestinidade. Pena.   

     ─ Você fuma por quê? ─ Porque é gostoso, só isso. A maconha não é doença, é sintoma. Sintoma de uma sociedade que venera o prazer {uma pulsão para o prazer}, ao mesmo tempo que reprime o humano.  Aí, a maconha passou a ser denso objeto de prazer. Freud vaticinou: é impossível enfrentar a realidade o tempo todo sem um mecanismo de fuga. Quando não se sabe onde se quer ir, qualquer caminho serve. Aí, a Medicina se contradiz e o Direito não se entende e a Psicanálise silencia e os governantes entendem lhufas e o Estado prende. Cruz!

       Enfim: 1.Cada cidadão é responsável pelo seu corpo. 2.Com limites claros, cada um pode plantar para uso recreativo próprio. 3.O uso individual é diferente do tráfico. 4.O Estado determinará onde se pode, ou não, fumar. 5.O Estado é responsável pela produção e venda em lojas credenciadas. 6. Pode haver a produção cooperativa, em clubes de usuários. 7.Pessoas credenciadas poderão plantar e comercializar. 8. O cidadão pode portar para si. 9.Idade mínima para tudo, 21 anos.      

         Por ser o Brasil, tudo isso poderá acontecer daqui a 100 anos! Enquanto isto, preferimos a guerra; esta é conveniente para muitos…  

Ah! OS MEUS NUNCAS

                        

{Poema por Paulo Afonso…}

Nunca aceitei as facilidades; preferi caminhos tortuosos.

Nunca aceitei as verdades como eternas; enamorei-me pela vontade de contestar e de contradizer.

Nunca quis envelhecer; ainda amo a infância e a adolescência que em mim habitam.

Nunca me curvei às frustrações; encarei-as como se luta contra um dragão.

Nunca desejei meu rosto limpo; minha cara sempre foi dada a tapas.

Nunca deixei a vida passar ao largo; sempre quis estar no meio do festim ou da amargura.

Nunca deixei de me perdoar pelos erros; eles foram os meus melhores professores.

Nunca quis ficar na praia; sempre desejei estar em meio ao oceano.

Nunca fui o capitão do meu navio; todavia, sempre fui o último a deixá-lo.

Nunca neguei ou reneguei a angústia que nasceu comigo, sempre a acariciei, fazendo-a uma companheira.

Nunca fiz coisas sem a intensa paixão; se erro, resigno-me e aprendo.

Nunca parei vendo a vida passar; às vezes, corria a sua frente.

Nunca gostei da paciência; contudo ela me torceu como se torce um ferro e, por fim, me venceu.

Nunca quis ser o primeiro em nada; entretanto a vida me levou a lugares altos. Sou-lhe grato.

Nunca o destino foi infiel a mim e nunca me abandonou; se me roubou {e me roubou muito} também me levou ao festim da vida.   

Nunca fui e nem serei rico; acostumei-me a ser feliz com o suficiente.

Nunca deixei de consultar os meus medos; eles foram a sinalização de minhas noites escuras.

Nunca perdi a esperança; embora, como tudo na vida, a idade a vai roubando de mim devagarzinho, devagarzinho.  

Sampa, inverno de 1983  

Deslizes do Inconsciente

                                  DESLIZES DO INCONSCIENTE

                                                                              

A senhora trabalha aqui? Em… que casa…?

    O domingo nascido naquela manhã prometia.

   Eu acordei suado, fatigado, porque iniciei a noite com uma insônia das bravas e a terminei com um sonho deveras esquisito. Sonhara que escondia coisas importantes em uma gaveta de cacarecos, certíssimo de que ninguém as veria. Porém, quanto as ocultava com capricho, mais emergiam travestidas sob outros feitios. Esgotado, não encontrava maneira de arrumar aquele interior confuso e conflitante, pois o encoberto lá dentro por mim, mais se parecia com o processo de uma erva daninha: corto aqui… ela cresce ali; aparo lá… brota acolá. E assim por adiante.

Confesso, o sonho de esconde-esconde me atormenta e nunca sai de minha cabeça.  Sobre ele e o que vai abaixo descrito, fico pensando, pensando, pensando. Carl Jung já analisava tal questão quando dizia que dentro de cada um de nós há um outro que não conhecemos. Ele fala conosco por meio dos sonhos.

Confesso, nem minha psicanalista consegue entender que, quando penso que tudo está arrumadinho, de repente, não mais que de repente, vem à tona o desarrumado e me toma de supetão.  Tento mais uma vez… em vão. Afinal, só é lutador quem sabe lutar consigo mesmo, consola-me Drummond…    

O episódio verídico que lhes narro é de importância e faço questão de mostrá-lo ao leitor que pensa {como eu} estar curado de mil insensatezes.  

 Azar por que aconteceu comigo? Ou sorte por que a vida me ensinou outra vez?  Deixo ao leitor a incumbência de responder.   

 Preguiçoso, o Sol estampava ingênuas sensações de serenidade; todavia, como sempre em mim é mínima a paz interna, essas sensações iriam se dissipar logo, logo. Viver é perigoso, pontuava Guimarães Rosa!  

   Amadurecer é mesmo difícil e penoso, porque pensamos ter sangue azul, saber tudo, ser capazes de poucos deslizes, seres sobrenaturais quase completos. Desenhamo-nos como pequenos deuses, vagando entre a perfeição e o encanto. Mera alucinação! Porém, não há como crescer sem erros. Pelo contrário, é admirável colocarmo-nos na situação de humanos desesperadoramente falíveis e esperançosamente mutáveis.

  É, parece que erros são como a ação da erva daninha: corta-se aqui… 

  Verdade. A alma é pau-mandado e nos engana; as vísceras, contaminadas pela sociedade, nos driblam; o coração, deveras corrompido, envia-nos mensagens dúbias; o sangue, fruto da história, nos algema; a mente, esta sim, comprometidíssima pela cultura. Tudo escondidinho nos faz sentir santos; melhor, santinhos do pau oco.

    Porém, detalhes em nossas entranhas nos denunciam: minúcias, umas aqui, outras ali, deixam-nos rendidos perante nós mesmos e, aí, camadas inconscientes vêm à tona.

     Ora veja, tudo um processo antidemocrático, diria o outro, brincando…      

     Continuemos, pois vou lhes provar o que disse acima.

     Tudo aconteceu tão ligeiro, mas tão ligeiro, que só uma consciência humilde e acostumada a detectar com uma lupa os detalhes da existência poderia captar.

      Aconteceu ter sido convidado para almoçar em casa de uma filha, que mora em uma vilinha, bem perto do centro de São Paulo. É um lugarejo incomum, acriançado, aconchegante, antes parecendo um do interior.

     Entra-se nela por uma portada de ferro a qual, elegante, abre-se somente com a anuência de quem mora em uma das sete casas ali existentes. Logo depois de ouvir a campainha, alguém de dentro aperta um botãozinho e… pronto; o resto o leitor já sabe.

     Como de costume, esquecera-me em qual das casas morava a tal filha. Fazer o quê? Apertei um botão, nada; apertei outro, também. Rezei por socorro, para o Além me amparar, enviando-me, quem sabe, alguma pessoa que, servindo de porteiro acidental, permitisse-me adentrar. Estava de tocaia.

     Atendidas as preces, eis vindo uma pessoa a passos de ganso, contudo firmes e fortes.  

     Era uma mulher negra.

     Como em situação incômoda de visitante ignorante para onde ir e duvidoso de qual tecla apertar, e por estar diante de uma senhora, apresentei-me afável, cordial, bem-educado, bem-criado, cortês. Aprumei-me como um pavão certo de que pelas palavras graciosas, pelos gestos gentis iria conseguir meu intento. Apresentei-me, nome, sobrenome, títulos e, se as tivesse e se ela mas pedisse, iriam também de roldão as credenciais civis.

     Já dentro do quintal, todo garboso e orgulhoso por ter sido polido, um verdadeiro palaciano, cheio de respeito, imune de racismos, perguntei-lhe com amabilidade:

  – A senhora trabalha aqui, em… que casa?

     Imperturbável, fitou-me os olhos. Saídas de sua boca as palavras não passaram pelos ouvidos, todavia alfinetaram-me corpo afora. Amargando minha alma, despindo-a, deixaram-na nua.

-Não, não sou quem você pensa. Sou fisioterapeuta e sou moradora aqui, na casa sete. Se possível, tenha o senhor um bom domingo. 

      Naquela noite, dormi rápido.  Contudo, sonhei que era um dos violonistas do Titanic…

SEGUNDA CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA A EL REY D. MANUEL.

Senhor,

Parece que foi ontem! Estava-se em 1500.

Parece que foi ontem quando cá chegamos, nesta terrinha tão encantadora, quanto hospitaleira.

Como já descrevi o que ela possui de beleza, fascinação e magia, não me tenho por obrigado a repetir tudo, pois assim e igual ela continua: bela, fascinante e mágica.

Tanto são verdades tais sentimentos que, hoje, posso redizer o que escrevi em 1º de Maio de 1500, quando estava em Porto Seguro. Se desejardes confirmar, peço ir à 1ª carta, que dorme aí, em Portugal, na Torre do Tombo e lereis:

…nesta terra, Alteza, águas são muitas; infinitas. Em tal maneira ela é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo…

Todavia, não posso deixar-me iludir pela sedutora arte do rejuvenescimento, pois que lá se foram 500 anos e eles me pesam nos ombros e na consciência.

Alteza, tanto Vós como eu sabemos que nunca se deve olhar o passado com os olhos de hoje, isto é, não se deve julgar o que se fez outrora com valores atuais. Seria injustiça e um conflitante modo de encarar a história e seus protagonistas.

Porém, se esta é a lei dos historiadores e psicanalistas, não devemos ficar imunes às críticas e nos eximir de responsabilidades, todas as que sobre nós pesarem. Se com isto não reconstituímos a história, pelo menos nos redimimos, pedimos as desculpas cabíveis ou pagamos a quem devemos. Se nada disso ainda tiver valor, pelo menos aprendemos com a história, para não mais errarmos.

Pois bem, Alteza, se acertamos ao “descobrir”, erramos ao colonizar.

Vá lá, fizemos o que a moral, a religião e a economia mercantilista da época ordenavam, mas ninguém me tira desta teimosa cabeça que vivíamos época em que a cobiça era o vício maior. Ó glória de mandar, ó vã cobiça, já denunciava Camões! Tanto é que nos agarramos com unhas e dentes a esta terra e não a demos a ninguém, mesmo porque era tal qual uma noivinha pura, riquíssima e cobiçada.

Amamos mais o que esta linda terra possuía e o muito que podia nos dar, do que a ela própria. Tal qual um amante desaforado, adoramos mais o ouro do que o Brasil. Amamos mais o Pau Brasil e menos os que aqui habitavam. Eles a tinham descoberto antes e, só por isso, já mereciam respeito; nós é que deveríamos nos considerar hóspedes. E respeito, meu Rei, não é chegado a fazer contas, menos ainda a de subtrair. Porém, os julgamos como que invasores de uma propriedade deles. Incrível!

O nosso primeiro pecado foram os índios.

Sim, Alteza, os índios foram o nosso crasso erro, a  maior maldade e a nossa indefensável perversidade. A violência dos bandeirantes parecia não ter limites: ensandecidos, saíam a caçar índios, tal como quando se estrangula uma pobrezinha gazela.

É notório que tínhamos de colocar este País em ritmo de desenvolvimento a qualquer custo e preço. Mas este foi caro demais e não fomos nós quem o pagou, pois deixamos de herança uma duplicata pesada demais para outros acertarem.

Sem que me veja fugindo da raia, parece-me que o humano adora deixar duplicatas a serem pagas. Assim, não vou recontar os males e mortes provocadas em nome do desenvolvimento, pois que anteciparam, nesta América, o Holocausto da Vossa Europa, ocorrido sob outra inspiração, nos anos 1930 e 1940.

Só que o ‘nosso Holocausto’ foi há séculos e está praticamente apagado da memória, principalmente na de um povo que não a tem em melhor estima e nem a cultiva. No entanto, só foi riscado da lembrança, Majestade, pois que, em cada canto deste País, se não ficaram restos mortais, ficaram os segredos que a matança não mostra, mas também não esconde. São murmúrios longínquos que habitam os ventos, os mares, as florestas e quiçá nossas almas. A isto chamo herança!

Entendei-me como quiserdes, só espero que sem ódio ou outra moléstia, mas tenho para comigo que a verdade é para ser engolida. Um poemeto de Cibae Ewororo, índio Bororó, fala por mim:

O homem branco, aquele que se diz civilizado, pisou duro não só na terra, mas na alma do meu  povo. E os rios cresceram e o mar se tornou mais salgado porque as lágrimas da minha gente foram muitas.

O nosso segundo pecado foram os negros.

Ah, cabeçudos fomos e sem a menor astúcia para perceber o quão tardia chegou a abolição ― fomos dos últimos países do mundo a perpetrá-la. Foram séculos de teimosia e, por fim, pressionada e encurralada, Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, princesa imperial, lavrou a ata da Lei Áurea, a custo de sangue, suor e lágrimas.

Será mesmo que a borracha apaga tempos de crueldade e de truculência? Não, a história não acaba quando um fato se encerra, mas, como uma vespa enfadonha e sedenta, fica rondando o presente e apontando o passado. Como a vespa ela fere, deixa picadas e mordeduras difíceis de sarar. Cicatrizes, às vezes, venenosas. A isto chamo herança ou duplicatas.

Dom Manuel, paremos por um instante: de início, os índios e o seu homeopático ‘desaparecimento’; após, os navios carregados de árvores estraçalhadas e de ouro puro quilate; depois, os negros, ensanguentados e mortos. Tudo me leva a crer não que não houve um descobrimento, mas uma invasão; não se optou pelo desenvolvimento, mas fez-se uma conquista traumática; não se tratou de colonização, mas de um escancarado assalto.

Continuemos: passados 500 anos, hoje, descubro para a Vossa Majestade não um, mas vários brasis.

Há um Brasil de brasileiros-ricos, opulentos e, no dizer do Português casto, dinheirudos e dinheirosos. Todavia, há um Brasil de pobres e miseráveis, que vivem uma vida indigna. Provo com um número capaz de estarrecer os insensíveis: 57 milhões vivem abaixo da linha da pobreza.

Há um Brasil de brasileiros-cultos, que estudam e se enobrecem de cultura e de letras. Entretanto, na outra ponta, estão os que não chegam à 4ª série. Há um Brasil de gente que trabalha e é séria e há outro cheio de vadios de gravatas, que roubam, forjam falências, desviam dinheiro do público ou se beneficiam do poder. Esta foi outra herança: aqui se gosta muito do poder; os que o têm não o largam, os que não o têm o procuram. A Corte ainda parece-me viva neste país…

Há um Brasil de brasileiros-índios que, mesmo com a sua terra demarcada, continuam sofrendo perseguições dos brancos, a torto e a direito. Há um Brasil de brasileiros-negros que se perguntam todo dia 13 de maio: será hoje o dia da comemoração da abolição? E, não tendo o que comemorar, lastimam serem barrados no festim da vida, pois a maioria não estuda e parte está nas penitenciárias, por culpa da sub-vida a que são submetidos desde pequeninos.

Há um Brasil de brasileiros-brancos que, sob a influência impactante, duradoura e nefasta daquela sociedade servil e subjugada, igualmente, ainda não escaparam da extensão escravagista. Tanto é que vivem em regime parecido: uns, na enxada, sem direitos trabalhistas; outras, assim chamadas empregadas domésticas, em nossos lares; outros, milhões analfabetos.

Pergunto-me, igualmente, como é possível tantos e distintos brasis em um único território? Até quando aguentaremos? À vista disso, questiono-me, entre o indignado e o incrédulo: qual força tão grave não permitiu a este meu País seguir em marcha? Afinal, 500 anos não são 500 dias, mas tempo suficiente para angústias do tipo por que este país não deu certo?

Vede, Alteza, ter eu mudado o tom de minha carta e já Vos escrevo como brasileiro. Há tanto vivo aqui, que assim mo considero. Poderia ser diferente? O amor por uma pátria não é genético, mas construído a pouco e pouco!

Há tanto trabalho para pagar as duplicatas e tentar mudar o rumo deste País que, em sendo maravilhoso por fora, há de sê-lo por dentro também. Todavia, é duro ser otimista ao ver um quadro que precisa de outra moldura ou uma casa que carece de outra mobília.

Majestade, salvaremos este País se deixarmos outras heranças aos nossos filhos.

Salvaremos este País se questionarmos o modelo econômico, super centralizador de rendas, de propriedades e gerador da violência urbana e da exclusão social. Entendo eu de mares e bússolas e tenho certeza de não ser este o rumo seguro.

O País estará a salvo se uma nova organização social privilegiar, como ponte excepcional para o desenvolvimento, a Educação.

É-me áspero escrever sobre ela pois, aí, o meu coração navega entre o sonho e a mágoa. Isto porque ignorais, Senhor, como (não) anda a Educação, dado que os governantes a tratam como prostituta e os governados a levam para a cama: todos nós cúmplices da mais absoluta falência ideológica, da falta de projetos e de um estranho caso de decadência sem auge.

De tal maneira, findo esta carta, a segunda, entretanto, não a última. Tenho-me na certeza de que dei conta do visto e vivido, pedindo-Lhe que me perdoe se por ventura tenha me alongado ou me embaralhado em minúcias.

Entendamo-nos, ainda e em tempo. Não penseis Vós, Dom Manuel, que só envio notícias ruins ou apontamentos malvados, pois não quero correr o risco de Vossa Alteza mandar-me pegar as caravelas e zarpar de volta a Portugal, à velas soltas.

Despeço-me, afirmando com franqueza nem tudo estar a se perder, visto que o último censo cá realizado aponta para a diminuição da porcentagem que separa brancos e negros. Já nem me recordo bem, Majestade, se foi o que li nas minhas leituras de cabeceira ou se é o que vejo nas calçadas de minha própria existência, mas há uma verdade concreta, que a muitos e a mim anima e entusiasma, a qual Vos revelo prazenteiro: pelo menos, na mistura de raças, estamos suprimindo as diferenças; findo algum tempo e se as coisas encaminharem-se corretamente, seremos, já-já, um país de mestiços.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Vosso São Paulo de Piratininga, no primeiro dia do quarto mês, do último ano deste milênio de 900.