MORTE MATADA

         A boca fala do que abunda o coração.

         Bolsonaro fala: … “O erro da ditadura foi torturar e não matar” E mais: “Pinochet devia ter matado mais gente”. Doria fala: “vou condecorar policias que mataram 11 bandidos no interior de SP”. Witzel fala: “contratarei snipers, atiradores de elite, para matar bandido”. Com dedos em posição de revólver, incitam a morte e a comemoram.

         Entre 2001 e 2015, a Pátria se tornou um imenso Haiti:  quase 800 mil homicídios {a grande maioria contra negros}. E vimos o número de civis ou de policiais mortos nas ruas ultrapassar o das guerras internacionais como a da Síria e do Iraque. As estatísticas apontam um flagelo brasileiro: mata-se uma pessoa a cada 10 minutos. Matamos mais do que todos os países da América do Sul juntos e mais do que todas as mortes registradas nos 28 países da União Europeia.  Hoje, políticos há que prestam homenagens às milícias.

          A história do Brasil é uma história de violência; não somos e nunca fomos um país cordato, não-racista e pacifista como dizemos às escâncaras e entupidos de hipocrisia. Pelo contrário, matamos muito, prendemos muito ─ e mal ─ e as mortes se tornaram uma escabrosa banalidade. Os atuais governantes não nos dão a menor esperança de alterar o andar da carruagem. Pelo contrário, o Presidente fala: “qualquer um vai poder reagir com 10, 20, 30 tiros”, e enfatiza: “a PM deveria ter matado 1.000 e não 111 no pavilhão 9 do Carandiru, em 1982”; o Ministro permite matar sob “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. Leitor, saiba, enquanto você leu este texto de só uma página, alguém morreu de morte matada. Fato.  

          Já estamos a caminho de uma sociedade esquizofrênica, se é que já não somos uma civilização do ódio. Entre mil outros, Amarildo sumiu, escafederam com Marielle e o músico Evaldo Rosa foi ‘confundido’ e assassinado, com 80 tiros (!), em frente ao filho de 7 anos, numa lambança hedionda de uma patrulha do Exército nacional.

           Freud escreveu sobre o mal-estar na civilização. Pensou que seria melhor voltarmos aos primórdios. E não é que o velho tinha razão…

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